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Cantinho do Dirk      
Dirk Niepoort partilha consigo algumas descobertas e
segredos preciosíssimos do mundo dos vinhos.



 
PORTUGAL
2009-01-20

PORTUGAL,
Um país com uma grande cultura vitivinícola.


Os romanos já cá andavam.
Já conheciam os pontos de água fulcrais e alguns dos “terroirs” para o plantio de vinha.

Portugal é um país do “Velho Mundo” (ao contrario do Novo Mundo: Austrália, EUA, Chile, etc.)

Devido a várias razões que não iremos referir neste texto, e excluindo o Vinho do Porto, os Moscatéis de Setúbal e os Vinhos da Madeira, a excelência vínica portuguesa quase que desapareceu do panorama português (principalmente no período dos anos sessenta devido ao cooperativismo imposto por Salazar).

Portugal, foi até ao final dos anos setenta um país afastado/reservado/fechado do resto da Europa e uma das consequências foi uma falta de desenvolvimento durante os últimos 50 anos.

Mas há males que vêm por bem….
O facto de Portugal ter estado tão isolado teve várias consequências tanto sociais, políticas e agrárias.
Portugal é hoje um dos poucos países no mundo (exactamente por termos ficado fechados do mundo durante 50 anos) com uma riqueza vitivinícola excepcional.
Como não havia meios para “modernizar” mantiveram-se as vinhas velhas, a cultura de plantar as vinhas misturadas (numa só vinha varias castas), e assim a enorme complexidade de castas existentes no Douro/Portugal (no douro são recomendadas 85 castas diferentes…existirão muitas mais), a pratica de usar lagares na vinificação, etc.
Os técnicos modernos dirão que Portugal está atrasado e que as vinhas velhas são más e produzem má qualidade (castas erradas, más praticas vitivinícolas, etc.).
Eu diria que os “velhinhos” sabiam em grande parte muito bem o que estavam a fazer. É evidente que as realidades eram outras e algumas atitudes que eram lógicas na altura, são hoje menos.
Era uma sabedoria empírica enriquecida ao longo dos séculos. Uma sabedoria de geração em geração.
Não há dúvida que hoje temos muitos mais conhecimentos técnicos do que antigamente, mas será que estava tudo mal?

Depois da revolução de 1974 houve a tendência (normal e natural) de sair do “Status Quo”:
O novo é bom, o velho é mau.
O que é importado é que é bom; o nacional é mau.
Ouve portanto uma atitude agressiva de alterar tudo, de refazer tudo de qualquer maneira.
O mesmo parece ter acontecido (mais tarde) na vitivinicultura portuguesa.
Uma atitude agressiva de “livrar se dos velhos fardos” deitando tudo abaixo e tentando copiar o novo mundo.
Muita tecnologia, novas formas de plantio, grandes produções por hectare, tudo mecanizado etc, etc, etc.
O discurso moderno ridicularizava todo o trabalho feito pelos antigos, de uma maneira agressiva.

Estamos a viver um momento importante para vitivinicultura portuguesa. Temos tudo na mão e temos a obrigação de:

1-Adaptarmo-nos ao novo mundo
2-Não desistir de todo o nosso passado e consequentemente deixar de tentar de ser competitivos
3-Procurarmos a nossa identidade


1-Adaptarmo-nos ao novo mundo (não é dizer que o novo mundo está errado) é termos a consciência que eles têm mais técnica, mais espaço, menos regras redutoras, melhores equipamentos, e sempre produtividades mais económicas. Resultado, vamos concorrer com estruturas muito mais organizadas e potentes do que as nossas.

2-É um bocado o que nós estamos a fazer. Estamos a arrancar vinhas e abandoná-las um pouco por todo o pais (para o bem europeu).
Uma vez mais, ao perdermos a nossa personalidade e ao baixarmos os braços, ficamos cada vez mais dependentes de linhas centralistas que ditam tudo e mais alguma coisa. No final acabaremos por ficar numa situação parecida com ponto 1

3- Somos um dos únicos países no mundo que ainda tem esta herança vitivinícola fantástica. Somos um país pequeno mas com diferenças locais incríveis (Douro/ Dão/Bairrada para dar um exemplo em tão pouco espaço).
Temos uma herança, em termos de castas, única;
Temos modelos de cultivo claros e únicos que funcionaram durante séculos;
Temos que ter a consciência que muita coisa foi mal feita nos últimos 50 anos. Temos que olhar atentamente ao património e tentar perceber o que os “velhinhos “ faziam, como faziam, e o que podemos Fazer com a matéria que temos (ao contrario de importar ideias feitas e deitar tudo fora);
Castas que poderão parecer miseráveis poderão, se observadas por um prisma diferente ser der um interesse fantástico;
Temos que usar a nossa fantasia e adaptarmo-nos as nossas realidades (e não ao contrario);
Usar a nossa fantasia passa também por ir lá fora aprender; ver outras realidades, não para copiar mas para abrir os nosso horizontes;
Partilhar experiências entre nós, ajuda todos a dar passos maiores.

 

O que Portugal tem que fazer hoje, no meu entender, é tentar perceber os tesouros que os “velhinhos” nos deixaram, tentar adaptar as vinhas velhas às novas realidades em vez de replantar tudo e começar tudo de novo. Quando dermos conta, vamos acordar e aperceber-nos que deitámos tudo fora, o que ninguém mais no mundo tem,  e passámos a ser iguais a todos os outros. Quer dizer,  fazer tudo como os outros, com as mesmas castas da mesma maneira com o resultado igual a qualquer vinho de qualquer parte do mundo.


Portugal é um tesouro vitivinícola como não há, no mundo.
Vamos juntar a sabedoria empírica, emocional, e com a tecnologia e criar um Portugal novo baseado no velho.
 

Dirk Niepoort

  
   
   
       




                                                                                             

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