
As despedidas são sempre difíceis.
Hoje, dia 4 de Agosto de 2009, o Sr José deixou-nos.
Nasceu em 1918 e, foi a terceira geração dos Nogueira a colaborar na Niepoort. Foi um dos alicerces fundamentais para a Niepoort, que hoje conhecemos. Trabalhou com o meu avô Eduardo Niepoort (3ª Geração Niepoort), com o meu pai Rolf (4ª Geração Niepoort) e comigo (5ª Geração Niepoort).
Há algumas pessoas que influenciaram muito a minha maneira de ser. Foram eles os meus pais, Wilhelm Haag, Ângelo Gaja, os meus problemas nas costas desde pequeno, alguns professores da escola, o meu tio Willi, e o Sr José. Este ultimo, foi seguramente o mais importante no que concerne o vinho.
Com ele aprendi muito, muitíssimo.
Desde 1987 que passei muitas horas com ele em Gaia a filosofar, a abrir garrafas esquecidas, provar diferentes lotes, enfim, a falar.
Com ele aprendi que 2 + 2 tanto pode dar 3 como 7.
Aprendi a arte do lote. Aprendi que para fazer lotes é preciso mais do que matemática, que é muito importante perceber os vinhos filosoficamente, não no que é óbvio mas sim nas entrelinhas. Que é muito importante respeitar as proveniências. Perceber que é a terra que faz os vinhos e não o homem.
Dizia ele, falando de vinhos de uma certa proveniência chamada Roncão;
Os vinhos do Roncão nunca roncaram, querendo ele dizer que os vinhos da vinha ao lado são fantásticos mas que os do Roncão nunca o foram…..
Aprendi a dar tempo ao tempo.
Aprendi, que há momentos quando se deve provar os vinhos e outros em que não vale a pena;
Vinha eu todo contente do Douro trazendo uma amostra de um porto acabadinho de fazer
Na minha “naivete”, juventude e inexperiência contava ao Sr José que este era um grande ano, que já tínhamos feito grandes vinhos. Que trazia uma amostra para ele ver e provar.
O Sr José calmamente dizia-me: calma, calma esta não é a altura para se provar vinhos da vindima.
Oh rapaz, vai ser uma desilusão; O vinho que no Douro parecia tão preto na côr, tão frutado e encorpado provavelmente agora está magro, quase sem cor e sem interesse nenhum.
No meu entusiasmo claro que não acreditava nas palavras do mestre e continuava a falar na fantástica cor etc etc.
Quando começo a encher um copo, com uma das amostras trazidas, quase não podia acreditar no que via: parecia um rose, sem cheiro, sem virtudes e só fraquezas.
O Sr José só me dizia; Calma rapaz, calma, estes vinhos só podemos provar no fim do ano quando eles voltarem a crescer.
Mandou me para o douro fazer os tais grandes vinhos e continuar a acreditar no que eu sonhava.

O trabalho do provador era fazer tudo o que estava ligado ao vinho.
Todo o trabalho técnico, assim como de provas, passava pelas mãos, nariz e língua do Sr José.
Era um trabalho que tinha aprendido do pai.
É extraordinário, e penso que único no mundo, uma situação de duas famílias que paralelamente fazem os alicerces da Niepoort.
Acredito que um dos segredos da Niepoort, que fazem com que os seus vinhos tenham uma personalidade muito própria, muito carácter e tanta complexidade, seja a longa longa experiência dos Nogueira. Antigamente quase sem estudos, mas hoje, no caso do Zé Rodrigo, com estudos, existe uma experiência, empírica e estudada, fascinante. É para mim um dos maiores orgulhos da Niepoort.
Hoje partiu um grande amigo
Dirk Niepoort